sábado, 8 de maio de 2010

A (nova) Hora do Pesadelo

(Do sofá! seção off topic sobre vídeos, filmes, tevê e o que mais o fim de semana possa (nos) oferecer)


ATENÇÃO: este texto pode conter spoilers indesejados


Não era a intenção ver A hora do Pesadelo hoje, pretendia ver Homem de Ferro 2 e, quem sabe, fazer um post para o blog, seguindo nossa "linha editorial'. Felizmente não me decepcionei e acabei me animando para comentar o filme. Como disse antes, não tinha intenção de assistir o filme e por isso nem me "preparei" vendo antes o original e/ou algumas das sequências. Sala vazia, num cinema de setes salas que por todo o fim de semana exibirá apenas 4 filmes (A hora do pesadelo, Alice nos país das maravilhas, Homem de Ferro 2 e Chico Xavier)! Mas vamos ao filme.

O ar retrô me agradou. Mesmo tendo sido avançada para os anos 2000, com a "origem" de Freddy se dando na década de 90, a ambientação ficou parecida com a dos anos 80. Bom notar que os subsolos com canos aparentes e fumaças permancem, como coisa da mente de Freddy, seu modus operandi, assim como os ambientes degradados e alagadiços dos quais as personagens em vão tentam escapar.

Outro elemento que também me chamou a atenção foi o timing do filme, também muito parecido com as "coisas dos 80". Quem assiste os flmes de hoje pode estranhar e achar até "lento", em função do ritmo cada vez mais frenético das produções atuais. Ainda assim, há os bons sustos e surpresas. Nada exagerado também no modo de eliminar suas vítimas utilizado pelo ex-jardineiro que tanto amava as crianças do colégio infantil.

Destaco também a atuação de Jackie Earle Haley que me foi bem convincente como Freddy, o que era de se esperar, visto seu papel como Walter Kovacs/Rorschach, em Watchmen, e como o Guerrero de Human Target. Quanto ao roteiro, como já disse, não pretendia comparar o original e o atual, portanto ficam as impressões deste último. O roteiro veio bem amarrado, fechando mais a história e ligando de forma mais direta o assassino e sua vítimas. Claro que há aquelas "coisas de filmes", todo mundo se ferrando e uma descrença geral até realmente não ter mais volta. Permanece o abuso de crianças e a eliminação do jardineiro por parte dos pais enfurecidos e, claro, há um bom mote para uma sequência da 'franquia", como os estúdios bem gostam de falar atualmente (o que pode sim ser um pesadelo).

De resto, se você nunca ouviu falar de A hora do pesadelo, talvez seja melhor ir ao cinema antes e depois ver as antigas versões. Se você acompanhou até aqui a saga de Freddy Kruger e está com pé atrás, talvez deva se despir dos preconceitos sobre reboots e conferir essa versão. Afinal, o pesadelo pode retornar quando você menos espera. Melhor não cochilar!

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No CAPACITOR há uma boa e breve retrospectiva sobre A Hora do Pesadelo.

No OMELETE, pra variar, um dossiê completo sobre o filme.

Abaixo segue o trailer do filme:


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juniores rodrigues

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Dica de sexta: Com grandes poderes...

E novamente alguém resolveu recontar a origem do Homem-Aranha! Grande! Foi o que pensei quando me deparei com a edição de Com grandes poderes... da Panini, numa livraria. Lembrei-me de um breve comentário que li sobre a HQ e decidi “tentar a sorte”. E tive sorte. Com grandes poderes... não é apenas uma recontagem da origem do aracnídeo mais querido da vizinhança. O que David Lapham leva a cabo é um preenchimento do período entre o acidente com a aranha radioativa e o evento trágico (no melhor sentido que os gregos poderiam esperar) que mudaria para sempre a percepção de Peter Parker sobre o que é ter grandes poderes, ser o cara e estar por cima: a morte do tio Ben!

Enquanto isso não ocorre, O Espertacular Homem-Aranha desfruta de seu crescente prestígio no (sub)mundo da luta livre, recheado com suas trapaças e seduções as mais variadas, e, como poderia ocorrer a todo adolescente, fica ofuscado pela fama repentina, agindo de forma displicente, mentindo para sua família, enquanto tenta ganhar a garota mais famosa da escola. De maneira inteligente, em consonância com a arte de Tony Harris, percebemos que o percurso de um grande herói, antes dos vilões e das grandes aventuras, é recheado de tentações, muitas das quais ele não irá resistir, até que esteja realmente preparado para assumir seu lugar num mundo de grandes responsabilidades.

Ah! Se tudo isso ainda não te convenceu, quem sabe a surpresa que acompanha a HQ lhe recompense por acreditar na dica e “tentar a sorte”.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Gilgamesh II – início, meio e fim.

por juniores rodrigues

Jim Starling é conhecido por ter o dedo certo para sagas cósmicas, tendo trabalhado tanto para a Marvel quanto para a DC Comics, em títulos como Batman, Superman, Justiceiro, Vingadores, entre muitos outros. Destacaremos do conjunto de seu trabalho a minissérie Gilgamesh II, de 1989. Se você está se perguntando ou foi pesquisar no oráculo pela primeira parte dessa história, provavelmente vai ficar um pouco confuso, pois Gilgamesh II é mesmo uma obra única, sem prévias e sem sequências. Bem... é mais ou menos isso. Pelo menos no que diz respeito ao quesito prévia, uma vez que o "II" do título se refere à Epopeia de Gilgamesh, rei de Uruk, na Mesopotâmia, que seria anterior às epopeias homéricas, sendo considerada uma das mais antigas referências ao dilúvio (bíblico), embora tenha sido descoberta apenas “recentemente” na história do mundo. Essa epopeia narra a história do rei Gilgamesh, parte homem parte deus, e sua busca de respostas para a questão da vida eterna, busca iniciada pela interrupção da forte amizade que o rei mantinha com Enkidu, seu parceiro de aventuras.

Com essa breve descrição da primeira “edição” de Gilgamesh, passamos ao texto/traço de Starling. Situada para algum ponto além dos anos 70, a história tem início com o fim de uma raça, isto é, com sobrevivência de apenas dois espécimes machos de uma raça alienígena que se vê obrigada a abordar a terra, sendo derrubada por uma arma nuclear americana. Isso por si só já dá a tônica do pano de fundo inicial de Gilgamesh II, a Guerra Fria. E é utilizando esse conflito que Starling torna verossímil a ascensão desse “semideus” entre os homens. No melhor estilo Arthur Clarke de “limpar” de suas histórias os modelos políticos e econômicos do século XX, Starling “resolve” os problemas do mundo, após longa e sangrenta guerra, através do controle corporativo, capitaneado pelo seu melhor guerreiro, aquele que se torna o Presidente Gilgamesh.

Resolvendo essa questão, Starling pode introduzir em sua história elementos de alta tecnologia, o que ajuda a conferir ritmo à trama, aliados a um traço minimamente realista, limpo, conciso, com cores fortes, condizentes com uma aura de mundo avançado, com destaque para o que realmente importa. Desse modo, batalhas dignas dos épicos têm seu lugar nessa minissérie, devidamente registradas por um forte aparato midiático. Se o toque sci fi permance inconcluso em suas possibilidades, a abordagem da mídia e seu modus operandi, por vezes aliada a interesses escusos e imorais, é bem destacada por Starling e parece permanecer nesses mais de vinte anos que sucederam essa publicação.

Assim, totalmente pleno de realizações e tendo o controle do mundo corporativo, apesar da constante presença de sua controladora mãe adotiva, Gilgamesh vê seus dias passarem imersos no tédio a que os “deuses” estão sujeitos quando o mundo aprende a caminhar sem eles. Mas é do ardiloso mundo corporativo que virá novamente a aventura para sua vida. Em missão nas florestas da América do Sul, o presidente conhece Otto, único ser capaz de se igualar a ele em força, descobrindo posteriormente o parentesco entre os dois (a cruel ironia do destino). Amizade firmada, é o veneno corporativo que também vai tirá-la da vida de Gilgamesh, o que o faz iniciar a busca de um sentido maior para a existência e mesmo a possibilidade de seu controle. O presidente parte então para o grande vazio que consumiu a URSS e a Europa Oriental, mergulhando nele em busca de respostas que talvez nunca possa obter.

Dramática e envolvente, Gilgamesh II faz a ponte entre o início de nossas mitologias, passando pelos medos do presente (1989, a Guerra Fria e o caos atômico iminente), com o possível fim da vida humana na Terra, não sendo só uma história de aventura, mas também um aceno para o interior de todos nós, das nossas incertezas e medos, sobretudo o medo inconfessado da impotência diante do “destino final” escrito para cada um de nós.

domingo, 2 de maio de 2010

Skizz, de Alan Moore

por Fernanda Friedrich

Skizz é uma HQ escrita por Alan Moore e ilustrada por Jim Baikie. Diferentemente de outras obras publicadas por Moore, Skizz não ganhou tanta projeção, à exemplo de V for Vendetta, Watchmen e Liga dos Cavaleiros Extraordinários (entre outros quadrinhos do autor) que foram adaptadas para as telonas do cinema, embora Moore não seja muito fã dessas adaptações – que o diga Sean Connery! Publicada em 1983, Skizz narra a história de um alienígena – cuja forma nos remete a um simpático canguru – que, devido a problemas com sua nave, acaba parando no nosso planetinha azul para realizar alguns reparos, no que não é muito feliz: sendo o planeta azul habitado por seres com “desenvolvimento restrito”, o computador de navegação, seguindo as leis interestelares, entra em modo de autodestruição, ignorando o fato de o intérprete Shcczhz (o alienígena em questão) estar vivo e saudável – à exceção de algumas costelas fraturadas. Desesperado, o alienígena livra-se de todos os artefatos tecnológicos que possui, a fim de convencer seu computador de bordo de que a sua presença na Terra não afetará a tecnologia terrestre e pula para fora da nave segundos antes da explosão, ficando à mercê dos seres que habitam o planeta, bem como de possíveis doenças que podem o acometer. Zhcchz vaga pelo local e encontra com os primeiros seres humanos, que compara aos “macacos desenvolvidos” de Tau-Ceti, seu planeta natal. Ao ouvirem os lamentos do simpático alienígena, esses humanos, que estão brigando entre si, o perseguem pela cidade até que nosso herói consegue se esconder em um abrigo desabitado.

Ao mesmo tempo, uma adolescente chamada Roxane está sendo convencida por um garoto a deixá-lo entrar em sua casa, já que seus pais estarão viajando pelo final de semana. Infelizmente – ou pelo menos infelizmente para o rapaz –, Roxy o manda embora depois de alguns xingamentos e uma eloquente batida de janela. A adolescente entra lamentando-se e escuta um barulho na garagem; imaginando ser Darren, o cara insistente, ela sai furiosa de seu quarto e vai vistoriar o local, dando de cara com o intérprete Zhcchz.

Aí se estabelece o primeiro contato direto e não hostil de um ser humano com o alienígena. Roxy cuida do nosso querido canguru, tenta alimentá-lo – no que não é bem-sucedida, visto que nada pára no estômago de Zhcchz – e o trata com bastante atenção, o que o surpreende, visto que, durante a sua experiência com os seres humanos, Shcchz só enfrentou situações relativamente violentas e desagradáveis. Devido ao fato de que o Zhcchz, apelidado de Skizz por Roxy, não consegue se alimentar, ela vai até uma farmácia, onde compra comida de bebê e esbarra em dois amigos de seu pai, Loz e Cornelius. Ambos foram despedidos da firma em que seu pai trabalha, o que não parece preocupar Loz, mas que afeta bastante Cornelius que, ao ser questionado por Roxy como estava em relação ao seu emprego, afirma apenas “Eu tenho meu orgulho”, frase que repete várias vezes no desenrolar da história e que, de certa forma, justifica todas as suas ações. Os dois dão uma carona a Roxy e estranham – ou pelo menos Loz estranha, visto que Cornelius parece estar completamente alheio à realidade – o fato de uma adolescente estar comprando comida para bebê e lhe oferecem ajuda ao deixá-la em casa. Esse pedido de ajuda não tarda se realizar; ao encontrar Skizz, Roxy percebe que o alienígena está bastante doente e, sem saber o que fazer, chama os amigos de seu pai. Ao se dar conta de que nada podem fazer para ajudar o alienígena, Loz liga pra a emergência.

Esses acontecimentos ocorrem simultaneamente ao descobrimento dos resquícios da nave de Skizz pelo governo e de uma grande comoção para o rastreamento do alienígena, que desconfiam ser um espião. E são eles quem vão buscar o intérprete na casa de Roxy, o que acaba por tornar pública a chegada de um extraterrestre ao planeta Terra. Naturalmente, Roxy, Cornélius e Loz são questionados a respeito do que disseram a Skizz e de quais informações ele pode ter-lhes passado. A investigação é liderada pelo capitão Van Owen, que está completamente obcecado com a ideia de que Skizz é um grande inimigo que deseja destruir o planeta Terra, ignorando a possibilidade de que esse encontro pode ser pacífico – ou mesmo um acidente.

Na base militar, Skizz se recupera do resfriado aprende a falar inglês, sendo, dessa forma, interrogado pelo Capitão, que desconfia de todas as suas respostas. Enquanto isso, protestos são feitos em frente à base militar em que Skizz está sendo mantido e Roxy, Cornelius e Loz organizam uma força-tarefa para sequestrar Skizz, estratégia que funciona bem até o momento em que eles são encontrados pelo capitão, que fica obcecado pela ideia de assassinar o inofensivo intérprete de Tau-Ceti. Os sequestradores e a presa são encurralados e, então, um milagre acontece: conterrâneos de Skizz descem do céu com suas naves brilhantes para resgatá-lo das “feras” terrestres. Skizz se despede de todos, finalizando as despedidas ao receber um beijo emocionante de Roxy.

Em toda a narrativa, são fortes as referências ao filme E.T. - O Extraterrestre, dirigido por Steven Spilberg e que, não coincidentemente, estreou nos cinemas apenas um ano antes da publicação de Skizz. Porém, diferentemente do filme, o nosso simpático canguru é encontrado por uma bela garota que se preocupa todo o tempo com o seu bem-estar, sugerindo, de certa forma, um relacionamento pseudo-amoroso entre os dois personagens, ente outras diferenças; Skizz é recebido com bastante violência pelos outros seres humanos, causando uma certa confusão, que é bastante explorada durante a narrativa; ao ser questionado por um de seus conterrâneos, afirma: “Eles... Eram cruéis e feios. Havia muito ódio e desespero... E tanto amor”. Os sentimentos que Skizz passa a experimentar durante sua estadia no planeta Terra são completamente novos para ele: a raiva pelo Capitão Van Owen, a necessidade de combatê-lo durante os interrogatórios, a vontade de mentir pela primeira vez, para acalmar Roxy; todos esses episódios o aproximam dos seres humanos e, de certa forma, reforçam a ideia de que os seres humanos são intelectualmente inferiores; afinal, deixam-se guiar por emoções. Um dos personagens mais intrigantes é Cornelius, que se envolve no sequestro de Skizz devido ao fato de que também se sente um alienígena dentro da própria sociedade em que está inserido, sendo descrito por Skizz como uma criatura que “tem um certo tipo de nobreza, uma aura de força colossal, lutando contra um desespero esmagador”, o que prova-se verdadeiro no momento em que Cornelius arrisca sua vida para salvar Skizz. É uma narrativa que peca pelo não aprofundamento das várias situações de conflito e dos próprios personagens, o que é melhor desenvolvido em outras narrativas de Moore, como Watchmen ou V de Vingança, por exemplo; deve-se levar em consideração o fato de que Skizz foi publicada em apenas uma edição, ao contrário das HQs citadas anteriormente. Ainda assim, é um trabalho bastante interessante para quem gosta ou pretende conhecer a obra de Moore, além de ser uma leitura bastante divertida.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Dica de sexta: terror em dobro

Indo às compras hoje, me deparei com duas histórias, ambas publicações da Devir, a princípio distintas, mas que têm em seu cerne um elemento comum, são histórias que buscam envolver o leitor pelos elementos de terror que contêm. Cada uma a seu modo, pois uma delas, Courtney Crumrin & As Criaturas da Noite, de Ted Naifeh, é voltada ao público infanto-juvenil, enquanto Pixu, de Gabriel Bá, Becky Cloonan, Vasilis Lolos e Fábio Moon, pode ser enquadrada como adequada para as “crianças grandes”.

Na primeira, a história de uma menina que, forçada a se mudar para a casa do seu estranho e rico tio, acaba por descobrir na velha casa e no mundo ao seu redor os elementos da magia, bem como seus fascínios e perigos. Entre as tentativas de encaixe num mundo social totalmente diverso do seu, aparentemente tão desejado e apropriado para seus pais, Courtney encontra na magia a saída para seus dias de tédio e isolamento, descobrindo que sempre há um preço a se pagar quando se vislumbra e se mexe com o “lado de lá”.

Pixu, por sua vez, tem como destaque uma casa e os terrores que as modificações em suas estruturas trazem para seus habitantes, pessoas de sexos, idades e temperamentos diferentes, que vão ter que enfrentar as forças do desconhecido, numa jornada macabra que pode não ter fim...

Cada uma a seu modo, quem sabe essas duas histórias possam tornar seu fim-de-semana menos tedioso e um pouco mais assustador...

segunda-feira, 26 de abril de 2010

HQs e mercado: as decisões editorais



por juniores rodrigues

Os quadrinhos são inegavelmente parte do universo do que se convencionou chamar de cultura pop. É arte? Com certeza! A Nona para o senso comum, a primeira para seus apreciadores mais fervorosos. Dos anos oitenta pra cá o status de arte tem se tornado inquestionável e as premiações em diversas categorias voltadas para "a literatura" têm provado o valor das HQs para contar histórias e mesmo revolucionar o "modo" de contar histórias. Conjugando texto imagético e texto escrito, ela é capaz de nos transportar a universos totalmente diferentes do "nosso" e nos levar a "viver" aventuras inimagináveis. As possibilidades são infinitas e a criatividade dos artistas envolvidos (roteiristas e/ou desenhistas) é o limite. Certo? É o que tentamos responder aqui, embora saibamos que essa não é tarefa das mais simples.

Nosso foco não se dará sobre as HQs tratadas como arte, mas nas HQs como "arte comercial", um produto com características específicas feito, antes de mais nada, para atender a uma demanda de mercado. Pretendo falar brevemente da relação entre a produção de HQs, no seu sentido estritamente artístico, e as necessidades de manutenção de um mercado editorial. Como dito antes, os anos oitenta serviram para conferir respeito às HQs e, desde então, muita coisa de qualidade tem sido feita, sobretudo no quesito dos "quadrinhos adultos", das histórias fechadas. Watchmen, Sandman, Preacher, V de Vingança, Sin City e mesmo personagens como John Constantine têm garantidos os seus lugares como base das HQs "de qualidade". Mas e quanto aos comics, que ocupam uma grande fatia do mercado e que, literalmente, não param nunca? Quais os critérios e as necessidades que essa forma de HQs têm de obedecer para continuar sua atuação sem perder de vista sua coerência e importância para gerações e gerações de leitores?

Nada que abale mais um jovem leitor que ver seu herói predileto erder a vida diante de uma grande e imopssível batalha contra o mal. E nada mais redentor que vê-lo levar a melhor sobre a morte e acompanhar seu retorno triunfante. E isso acontece uma vez. E uma segunda vez. E quando você vê, já perdeu a graça, não convence mais. E quando você vê, você já não é mais aquele garoto/garota que se deixava envolver tanto e se levar pelas aventuras de seus heróis e heroínas. E aí? Simplesmente é a hra de saltar do barco. Assumir a alcunha de velho e se dedicar a coleções fechadas e a seu acervo da época "em que as coisas eram boas de fato"? Talvez... Mas você consegue ser tão sério e sisudo de repente?

É claro que o mercado de HQs se renova bastante em termos de idade de seus leitores, mas nós estamos aqui, velhotes que não conseguem largar o osso. Certamente nos tornamos leitores melhores (muitas vezes graças aos quadrinhos mesmo) e, claro, muito mais exigentes. E então você já leu e releu Sandman e toda a sua coleção de encadernados, mas ainda não resiste em saber o que acontece com seus heróis, quais sagas se desenrolam e qual a última nova novidade que abala seus mundos.

Adentrando um pouco mais na questão desejada, chegamos ao ponto que abala, sobretudo, a nós, leitores antigos, costumeiros: a conjunção entre a produção de um objeto de fruição e as necessidade de avança e manutenção de seu mercado. Como se conciliam a produção artística em torno do mundo dos heróis e a necessidade de renovação de público para esse mundo? Quais as necessidade editoriais que regem, nem sempre por detrás dos panos, as vidas e os universos de nossos "sagrados" companheiros de tantas lutas?

Uma maneira clara de promover alterações no mundo dos heróis é a realização de sagas. Cria-se uma situação substancialmente maior que as habituais, que irá gerar consequências para todos os envolvidos, muitas vezes resultando na dissolução de grupos, inimizades, novas alianças e na famigerada morte de heróis e vilões. A morte, esse parece ser o grande elemento que separa heróis de vilões, a única fronteira que não pode ser cruzada pelos "escolhidos". Então ela vem e nos tira um herói. E isso é doloroso, mais ainda quando se trata de um dos grandes, daqueles que despertam o que há de melhor em seus universos. Capitão América e Superman são bons exemplos disso. E suas mortes e retornos talvez sejam sintomas das necessidades das editoras de manter a bola sempre no alto e de ter outra bola levantada quando a anterior é cortada. Então vem uma nova saga e uma nova "era". E nós, os leitores apaixonados, ficamos com cara de taxo. Sobretudo quando as explicações para os retornos não batem muito bem. Sobretudo quando o que está morto deveria continuar morto. Já vimos esse filme diversas vezes e continuamos a assisti-lo. De novo, talvez a culpa seja só nossa por não trocarmos de canal, mas...

Mataram o Super-homem, mataram Capitão América, mataram o Thor, mataram o Lanterna Verde, mataram (várias vezes) o Flash e, o impensado, embora talvez o mais desejado, "mataram" o Batman (que já havia sido "quebrado"). Estávamos prontos pra isso? Provavelmente sim. E agora todos "'caminham" novamente entre os vivos, mantendo acesa a chama da jutiça. Todos? Bem, o Batman ainda não voltou, mas sabe-se que voltará. Apenas tirou umas "férias" e foi viajar no tempo... Enquanto isso "todos os mortos" do Universo DC se levantaram e, depois de muita luta, voltaram para o descanso eterno. Todos? Claro que não! Alguns heróis e vilões estão aí de novo, prontos pra outra, pra outro embate com a Dona Morte. E qual o porquê disso dentro da infinita narrativa das HQs comerciais? A resposa é quase sempre a mesma: manter a coerência, amarrar pontas soltas e, antes de tudo, dar emoção a novos e "antigos" leitores. Há sempre um projeto terminando e outro iniciando. Já não temos mais um espaço para respirar entre uma "surpresa" e outra, porque... O Arqueiro Verde (que também já morreu) cruzou a linha e toda a "família" de arqueiros está sofrendo as consequências disso, além da própria Liga da Justiça.


Bem, parece que chegamos num ponto sem volta e também sem muita possibilidade de ação. Dificilmente poderemos parar essa onda de mortes e retornos, de ascenções e quedas. Do ponto de vista editorial, são sempre a melhor saída ou opção para reoxigenar o mercado e introduzir novas situações e antigos personagens (e novos formatos) a novos leitores, ainda que muitas (a maioria?) dessas decisões saiam do nada e levem a lugar nenhum, causando irritação e decepção, faltando "culhões" aos editores para manter aquelas mais interessantes (um mundo sem Batman/Bruce Wayne?). De todo modo, é interessante para o nosso crescimento mesmo, como leitores, perceber e dialogar com essas "mudanças" e adaptações pelas quais passam e separar o joio do trigo nessas publicações permanetes. Pois permanentes é o nosso amor à causa heróica e, por mais que sacudam nosso mundo e balancem nossas convicções, resistiremos bravamente junto aos heróis que o tempo nos ensinou a admirar e a acompanhar.

terça-feira, 13 de abril de 2010

SEGUINDO NEIL GAIMAN

por Jonas Tenfen


Como toda ferramenta virtual que tem sucesso na internet, o Twitter também foi acusado de corromper as pessoas, de destruir a escrita, de ser mais uma marca dessa decadente geraçãoaudio-visual... e por aí segue ad infinitum uma reiteração dos mesmos argumentos e uma variação – igualmente sem fim – sobre os mesmos temas; variando, de fato, apenas o alvo do comentário: uma ferramenta virtual qualquer em questão ou debate.

Comentários estes que também são comuns em discursos de escritores e pensadores laureados, em alguns casos, laureadíssimos, diga-se de passagem. Como, por exemplo, José Saramago, Nobel de Literatura, que constantemente afirma nas suas entrevistas: Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido. Escapou ao excelente escritor (excelente mesmo! sem ares de ironia que fatalmente podem pairar sobre o comentário) pequenos detalhes como o fato de que quase todos os hai-kais (todos se escritos em ideogramas) e a grande maioria dos aforismos de Nietzsche cabem em 140 toques – até menos. Começa, a partir destes dois exemplos dentre tantos outros, ficar um pouco complicado e difícil reduzir a simples grunhidos escritas dessa dimensão. (Barbárie se dá de todos os tamanhos, mas isso é uma outra discussão.) Até mesmo os nobéis, principalmente se de mau-humor, são passíveis de ligeiras falhas argumentativas como estas.

De maneira geral, o Twitter conseguiu espaço pela leveza e agilidade: ao tentar se diferenciar de um e-mail pela limitação do número de toques, acaba criando a vivacidade que lhe é tão característica. O chargista Maurício Ricardo afirmou recentemente, na sua sessão e-mails comentados do seu www.charges.com.br, que se tornou fã incondicional do Twitter pela facilidade de administração e controle, em oposição direta ao Orkut. De fato, o Orkut – incrivelmente popular no Brasil – é uma espécie de fórum de si mesmo, onde os posts e scraps são as pistas da popularidade e da leitura, que pode se desdobrar em infinitas comunidades, em fóruns e tópicos dentro de comunidades... algo bem difícil de se administrar. No Twitter, a quantidade de seguidores, por si só, já é “o sucesso”: todos os seguidores receberão os posts, mas se estes serão lidos, debatidos ou apagados não importa tanto. Os comentários podem ser retwettados, o que inicia toda uma outra estatística, também sintoma de popularidade.

Outro twitteiro muito profícuo é Neil Gaiman. Gaiman, que possui hábitos reclusos (não tão reclusos como os de Alan Moore, obviamente), fez da Internet e agora do Twitter uma ferramenta para se aproximar - ainda que se afastando – dos seus leitores no mundo todo. É muito comum que o autor de Sandman, antes de uma palestra, peça aos seus seguidores para lhe enviarem perguntas a serem respondidas depois da sua fala. Em recente palestra no Royce Hall, o principal Centro de Eventos da University of Califórnia (UCLA), Gaiman foi perguntado – como acabamos de comentar, via Twitter – quando Sandman vai virar filme. Muito à inglesa, limitou-se a responder: “Quando for filmado.”

Para além de perguntas e “What’s happening?”, Gaiman utiliza o Twitter para divulgar livros, textos, obras, não apenas – na verdade, raramente – os seus livros, mas de outros autores que encontraram no ambiente virtual espaço para publicar seus trabalhos. Leitor voraz, Gaiman deve garimpar muito material on-line, da mesma foram que deve receber muitas indicações; leitor generoso, faz questão de divulgar esse material. Seria interessante, mas ligeiramente inútil, abrir uma sessão neste blog chamada “Dicas de Gaiman”, com estes posts do Twitter. Interessante, pois teríamos NEIL GAIMAN como colaborados nosso no Cultura HQ! (Ora leitor, a propaganda é a alma do negócio!) Mas inútil, porque qualquer um pode segui-lo, mesmo sem Twitter. Sem contar que tais “dicas”, por vezes, acabam sendo conhecidas e popularizadas por outras ferramentas do orkut, como por outros blogs, como pelo próprio, e ainda forte, orkut.

*Jonas Tenfen não tem Twitter por pura preguiça, e quem lhe passa muitas das dicas de Gaiman é Juniores Rodrigues. Se você é twitteiro e ainda não segue Neil Gaiman, o endereço é @neilhimself; aproveite a deixa e passe a seguir o Cultura HQ também! Nosso endereço é @cultura_hq.Você pode ler toda a entrevista de José Saramago que foi citada neste texto clique aqui.